Telessaúde leva atendimento especializado às aldeias indígenas de Dourados pela primeira vez

Henry Everdale Por Henry Everdale
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Projeto do HU-UFGD conecta a Reserva Indígena de Dourados a médicos especialistas sem exigir deslocamento até a cidade

Dourados registrou um marco na integração entre tecnologia e saúde pública neste ano: o Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD) realizou o primeiro atendimento especializado por telessaúde voltado às aldeias indígenas da Reserva Indígena de Dourados (RID). A conquista chega depois de meses de estruturação, testes e treinamento das equipes envolvidas no projeto.

Como funcionou o primeiro atendimento

A teleinterconsulta aconteceu entre a Unidade Básica de Saúde Indígena da Aldeia Bororó e o HU-UFGD, com o paciente acompanhado presencialmente pela equipe de atenção básica indígena local e suporte remoto de um médico especialista do hospital. O atendimento especializado foi conduzido pelo endocrinologista Rafael de Moraes, e teve como objetivo demonstrar, na prática, como a conectividade pode reduzir a distância entre pacientes indígenas e cuidados médicos de maior complexidade.

A distância física entre o hospital e a unidade de saúde que participou da teleinterconsulta é de mais de nove quilômetros, um trajeto que muitas vezes representa uma barreira real para famílias que dependem de transporte próprio ou de veículos oficiais para chegar à área urbana da cidade.

Uma reserva indígena entre as maiores do país

A Reserva Indígena de Dourados é formada pelas aldeias Jaguapiru e Bororó e é considerada uma das maiores reservas indígenas em área urbana de todo o Brasil. Estimativas apontam a presença de cerca de 20 mil indígenas das etnias guarani, kaiowá, guarani nhandeva e terena vivendo na região, o que torna Dourados um ponto de particular relevância para políticas públicas voltadas à saúde indígena em Mato Grosso do Sul.

Esse cenário levou, inclusive, a uma visita técnica de representantes do Ministério da Saúde às unidades de saúde da reserva, com o objetivo de conhecer de perto a realidade do atendimento local e discutir avanços nas políticas públicas voltadas aos povos originários no estado.

O projeto de telessaúde é resultado de uma parceria entre a Unidade de e-Saúde do HU-UFGD, o Comitê de Saúde Indígena do hospital e a Secretaria Especial de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde. A iniciativa foi contemplada em edital da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect), com investimento de 80 mil reais destinados à compra de equipamentos de informática e conectividade e à ampliação das equipes técnicas envolvidas.

Antes de chegar à fase de atendimentos, o hospital promoveu um treinamento com cerca de 30 profissionais do Distrito Sanitário Especial Indígena de Mato Grosso do Sul (DSEI-MS), garantindo que as equipes das aldeias estivessem preparadas para operar os recursos de telemedicina e as técnicas de matriciamento e interconsulta com o hospital de referência.

O que muda na prática para as comunidades

Com os equipamentos já instalados nas duas unidades básicas de saúde das aldeias, o objetivo do projeto é reduzir deslocamentos até a área urbana, garantir acesso mais rápido a especialistas e manter um atendimento que respeite as especificidades culturais e linguísticas das comunidades indígenas atendidas. A expectativa da equipe responsável é que, nos próximos meses, o serviço passe a operar de forma plena, com equipes multiprofissionais atuando de maneira integrada entre as aldeias e o hospital.

Para Dourados, a iniciativa representa um caso concreto de como a tecnologia pode ser aplicada para enfrentar desafios estruturais de acesso à saúde, especialmente em um município que reúne, ao mesmo tempo, uma das maiores populações indígenas urbanas do país e uma rede hospitalar de referência regional capaz de sustentar esse tipo de conexão remota.

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