Soja não transgênica: Um nicho que ainda paga bem

Wander Aguilera Almeida
Henry Everdale Por Henry Everdale
5 Min de leitura

Enquanto quase toda a soja plantada no Brasil já é geneticamente modificada, o empresário Wander Aguilera Almeida, intermediador no mercado de grãos, acompanha de perto uma fatia pequena da lavoura que segue não transgênica, justamente a que tende a pagar melhor para quem tem estrutura para atendê-la. Esse nicho exige um tipo de negociação bem diferente da soja convencional negociada em massa. A seguir, entenda como funciona esse mercado, quem paga o prêmio e se vale a pena migrar para ele.

Grão diferente exige logística diferente

Vender soja não transgênica não é só plantar uma semente diferente: é manter esse grão separado do restante da produção em todas as etapas, do armazenamento ao transporte, sob pena de contaminar o lote com grão transgênico e perder de vez a característica que justifica o preço mais alto pago pelo comprador final.

Diante disso, Wander Aguilera Almeida ressalta que esse processo, chamado de segregação, exige silo próprio ou reservado exclusivamente para esse grão, caminhão limpo e sem resíduo de outra carga, além de documentação que comprove a rastreabilidade desde a lavoura até o porto de embarque, estrutura que nem todo produtor tem disponível de imediato. Uma auditoria de terceira parte tende a acompanhar esse processo, verificando amostras em pontos diferentes da cadeia para confirmar que não houve mistura.

Quem paga esse prêmio e por quê

O Japão, historicamente dependente de soja convencional comprada dos Estados Unidos, vem buscando reduzir essa dependência e ampliar a compra de soja não transgênica brasileira, com metas de substituição que se estendem por anos e envolvem, inclusive, financiamento para conversão de áreas de pastagem em lavoura. Estimativas do setor apontam demanda japonesa próxima de duzentas e trinta mil toneladas por ano, volume ainda majoritariamente suprido por fornecedores americanos.

A União Europeia segue o mesmo caminho, com compradores dispostos a pagar valores adicionais por saca justamente para garantir um produto sem modificação genética, prêmio que em alguns ciclos já superou dez dólares acima da cotação de referência internacional. Parte desse interesse, de acordo com Wander Aguilera Almeida também vem de rótulos que exigem informar ao consumidor final a ausência de ingredientes geneticamente modificados na composição do produto.

Wander Aguilera Almeida
Wander Aguilera Almeida

Esse prêmio, porém, não é fixo: ele varia bastante conforme a oferta disponível e a demanda do momento, podendo encolher rapidamente quando o mercado se satura, como já aconteceu depois de uma safra em que o valor elevado pago no ciclo anterior atraiu produtores demais para o segmento de uma só vez, derrubando o prêmio na temporada seguinte.

Um mercado pequeno, mas com espaço para crescer

A soja não transgênica ainda responde por uma fatia mínima da área total plantada no Brasil, algo perto de dois por cento do total semeado, deixando margem considerável de expansão para quem quiser entrar nesse nicho enquanto a demanda internacional segue firme.

Wander Aguilera Almeida descreve o Brasil como posição única nesse mercado, já que os dois maiores concorrentes diretos, Estados Unidos e Argentina, cultivam soja majoritariamente transgênica e têm pouca estrutura para competir nesse segmento específico, deixando o país brasileiro praticamente sozinho para atender essa demanda em escala relevante para os compradores internacionais.

Vale a pena migrar para não transgênico?

Nem todo produtor sai ganhando com a migração: o custo de produção tende a ser maior, sem o auxílio de determinados defensivos usados na soja transgênica, e a exigência de segregação consome tempo e organização extra ao longo de toda a safra, desde o plantio até a entrega final. Calcular esse custo adicional antes de decidir, e não depois de já ter plantado, evita a frustração de descobrir tarde demais que o prêmio recebido não cobre o esforço extra investido.

Para Wander Aguilera Almeida, a decisão faz sentido principalmente para quem já tem contato direto com compradores desse nicho e estrutura para cumprir a rastreabilidade exigida, e não como aposta isolada sem relação prévia com quem realmente paga o prêmio no final da negociação.

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