Convencer o conselho também é negociar, sinaliza Haroldo Augusto Filho

Haroldo Augusto Filho
Henry Everdale Por Henry Everdale
5 Min de leitura

Há um movimento consistente de profissionalização dos conselhos. Segundo a avaliação de Haroldo Augusto Filho, executivo da Fource Consultoria com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, essa mudança transformou a apresentação de propostas estratégicas em uma negociação de verdade, em que executivos precisam convencer conselheiros cada vez mais preparados e críticos.

Muitos diretores ainda tratam a reunião de conselho como uma apresentação a ser aprovada. Chegam com dezenas de telas, defendem a proposta como pronta e se surpreendem quando ela é adiada ou rejeitada. Nas próximas linhas, você vai descobrir as etapas para preparar e conduzir essa negociação com mais chance de sucesso.

Conversar com conselheiros antes da reunião

Decisões importantes raramente são tomadas na reunião formal. Elas se constroem nas conversas anteriores, em que o executivo apresenta a ideia a cada conselheiro, ouve dúvidas e ajusta a proposta. Chegar à reunião sem esse trabalho prévio é arriscar que uma objeção inesperada contamine todo o grupo em poucos minutos.

Essas conversas não servem para conquistar votos nos bastidores, e sim para colher informação. Cada conselheiro tem uma área de experiência e uma preocupação central: um olha para o risco financeiro, outro para o impacto na marca, outro para a execução. Conhecer essas preocupações antes permite incorporá-las à proposta final.

Apresentar alternativas, e não uma proposta única

Uma proposta apresentada como única opção coloca o conselho diante de uma escolha binária: aprovar ou rejeitar. Qualquer dúvida se transforma em ameaça à proposta inteira. Diante desse cenário, Haroldo Augusto Filho aponta que levar duas ou três alternativas, com seus custos e riscos, convida os conselheiros a comparar em vez de vetar.

Uma diretoria que deseja expandir para outra região pode apresentar três caminhos: abrir uma operação própria, comprar uma empresa local ou firmar uma parceria. A recomendação do executivo continua clara, mas o conselho passa a participar da construção da decisão. Mesmo quando escolhe a opção recomendada, faz isso com mais convicção.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Antecipar as objeções

Toda proposta estratégica tem pontos fracos, e os conselheiros vão encontrá-los. Ao mesmo tempo, poucas coisas enfraquecem tanto um executivo quanto ser surpreendido por uma objeção óbvia. Apresentar os riscos antes que sejam levantados, com as medidas previstas para mitigá-los, demonstra preparo e reduz o espaço para desconfiança.

Com base na leitura de Haroldo Augusto Filho, a melhor preparação inclui um exercício simples: imaginar as três perguntas mais difíceis que cada conselheiro faria e responder a elas por escrito. O exercício revela lacunas na própria proposta e, muitas vezes, leva a ajustes que a tornam mais sólida antes da reunião.

Aceitar o adiamento como parte do processo

Nem toda proposta é aprovada na primeira reunião, e isso não significa derrota. Um pedido de informações adicionais ou um adiamento para a reunião seguinte pode indicar que o conselho está interessado, mas ainda não convencido. Tratar esse resultado como rejeição leva o executivo a defender a proposta com mais ênfase, quando deveria ouvir mais.

O intervalo até a próxima reunião é uma oportunidade de negociação. O executivo pode procurar os conselheiros que manifestaram dúvidas, entender exatamente o que faltou e ajustar a proposta. Em muitos casos, a segunda apresentação é aprovada justamente porque incorporou as contribuições que a primeira ignorou.

O conselho como parceiro de decisão

Executivos que veem o conselho como obstáculo tendem a esconder riscos, apresentar números otimistas e evitar perguntas difíceis. O resultado é uma relação de desconfiança mútua, em que cada proposta vira uma disputa. Em sentido oposto, quem trata o conselho como parceiro encontra nele uma fonte de experiência e de questionamento que melhora as decisões.

Essa parceria se constrói com transparência ao longo do tempo, e não apenas nas reuniões em que algo importante está em jogo. Ao observar esse cenário, Haroldo Augusto Filho avalia que negociar bem com o conselho é, antes de tudo, construir credibilidade para os momentos decisivos. Quem já demonstrou franqueza encontra mais abertura quando precisa propor algo ousado.

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