Valdemir Ferreira Santos comenta a ascensão do Direito Agrário no Brasil

Valdemir Ferreira Santos
Diego Velázquez Por Diego Velázquez
6 Min de leitura

Existe uma percepção comum de que o Direito Agrário é uma área restrita a advogados especializados em fazendas e produção rural, distante do dia a dia da magistratura urbana. Essa visão, no entanto, vem perdendo força diante da crescente importância econômica do agronegócio brasileiro e da complexidade jurídica que passou a envolver esse setor nos últimos anos, exigindo conhecimento técnico que ultrapassa em muito os limites tradicionais do Direito Civil.

Por que o Direito Agrário ganhou tanto espaço?

O agronegócio ocupa hoje uma fatia expressiva do Produto Interno Bruto brasileiro, o que naturalmente aumenta o volume e a complexidade de litígios relacionados à produção rural. Contratos de arrendamento, financiamento agrícola, questões ambientais, disputas trabalhistas rurais e conflitos fundiários frequentemente se sobrepõem em um mesmo caso concreto, exigindo do julgador conhecimento técnico que vai muito além do Direito Civil tradicional, capaz de lidar com múltiplas camadas normativas ao mesmo tempo.

Esse cenário criou uma demanda crescente por profissionais capacitados especificamente nessa interseção entre Direito e produção agrícola, o que explica por que instituições de ensino jurídico têm investido em cursos de especialização voltados justamente para esse recorte, ainda pouco explorado por boa parte dos operadores do Direito no país. Tal como aponta Valdemir Ferreira Santos, a escassez histórica de profissionais qualificados nessa área específica se tornou, paradoxalmente, um dos fatores que mais impulsionam a busca por esse tipo de formação atualmente.

O que caracteriza essa especialização em Direito Agrário?

A especialização concluída por Valdemir Ferreira Santos, entre 2023 e 2025, pela Faculdade de Direito da Fundação Escola Superior do Ministério Público, resultou no trabalho “Direito Agrário e do Agronegócio: uma visão contemporânea”. Trata-se de um recorte relativamente recente na formação jurídica tradicional, que ganhou força à medida que o setor produtivo rural se tornou juridicamente mais sofisticado ao longo da última década. 

Combinar essa formação com a atuação em uma vara de conflitos fundiários cria um perfil de magistrado preparado para lidar tanto com a dimensão social quanto com a dimensão econômica que costuma atravessar esse tipo de litígio, dois aspectos que raramente aparecem dissociados na prática forense. Um mesmo processo pode envolver, ao mesmo tempo, uma disputa histórica de posse e uma discussão técnica sobre produtividade agrícola, o que exige domínio simultâneo de diferentes ramos do Direito.

Valdemir Ferreira Santos
Valdemir Ferreira Santos

Um campo do Direito ainda em consolidação

Apesar da relevância econômica do setor, o Direito Agrário ainda não ocupa, nas faculdades brasileiras, o mesmo espaço curricular consolidado de disciplinas como Direito Civil ou Direito Penal. Boa parte dos cursos de graduação trata o tema de forma superficial, quando trata, o que faz com que a maioria dos profissionais só entre em contato mais profundo com essa área depois de formados, geralmente motivados por demandas específicas da própria atuação profissional.

Isso faz com que a busca por especializações específicas nessa área funcione como um diferencial técnico relevante para quem lida, na prática, com litígios ligados à terra e à produção rural. Esse tipo de qualificação adicional tende a se tornar cada vez mais comum entre magistrados que atuam em regiões de forte vocação agrícola, como é o caso do Piauí, estado que combina crescimento expressivo do agronegócio com a persistência de conflitos fundiários históricos ainda não resolvidos.

A distância entre teoria e prática nesse setor

Grande parte da complexidade do Direito Agrário vem justamente do fato de que a lei, isoladamente, raramente é suficiente para resolver um conflito concreto sobre terra. Questões de fato, como o tempo de ocupação, o uso produtivo da área e o histórico de ocupação da região, costumam pesar tanto quanto a interpretação estritamente jurídica das normas aplicáveis ao caso, o que exige do magistrado uma sensibilidade que vai além do domínio puramente técnico da legislação.

É justamente essa combinação entre teoria jurídica e sensibilidade prática que especializações como a de Valdemir Ferreira Santos buscam desenvolver, preparando magistrados para lidar com casos em que a solução jurídica precisa necessariamente dialogar com a realidade concreta da produção agrícola e da ocupação da terra em determinada região do país.

Direito que acompanha a economia real

Compreender essa tendência ajuda a entender por que o Direito Agrário deixou de ser um tema marginal dentro da magistratura brasileira. À medida que o agronegócio consolida sua importância na economia nacional, cresce também a exigência por magistrados capazes de compreender, com profundidade técnica, as particularidades desse setor produtivo, que combina tradição rural com práticas cada vez mais sofisticadas de gestão e produção.

Trajetórias que somam formação penal, atuação fundiária e especialização agrária ilustram como a magistratura tem se adaptado a demandas econômicas e sociais que, há poucas décadas, sequer exigiam esse tipo de qualificação específica dos juízes brasileiros, mas que hoje se tornam cada vez mais indispensáveis para dar conta da complexidade real desse setor da economia.

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