Daniel Mors explica por que o ouro triplicou de preço em 5 anos 

Golden Brasil
Henry Everdale Por Henry Everdale
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O ouro não paga juros, não distribui dividendos e boa parte dele nunca chega a ser usada na indústria. Ainda assim, seu preço no Brasil saltou de R$296,50 o grama, em dezembro de 2020, para R$901,01 em 2026, uma valorização de cerca de 140,45% em cinco anos. Daniel Mors, empresário especialista em negócios com minérios, destaca que esse tipo de alta contraria a lógica de quem só enxerga valor em ativos que geram renda direta.

A pergunta que fica é simples: por que um ativo que não produz nada continua atraindo tanto capital, ano após ano? Confira a seguir como essa engrenagem funciona e por que ela tende a se repetir em ciclos.

Por que um metal sem rendimento vira reserva de valor?

O valor do ouro não vem do que ele produz, mas do que ele preserva. Diferente de uma ação ou de um título de dívida, o metal não depende do desempenho de uma empresa nem do cumprimento de uma promessa de pagamento. Sua escassez física é finita e conhecida, o que impede que qualquer governo ou instituição simplesmente aumente sua oferta para cobrir um déficit.

Essa característica se torna especialmente relevante quando a confiança em moedas nacionais é abalada. Diante da desvalorização de uma moeda ou de um período de inflação persistente, investidores buscam um ativo cujo valor não dependa da política econômica de nenhum país específico. O ouro, historicamente, ocupa esse papel de reserva neutra, funcionando como uma espécie de âncora quando o resto do sistema perde referência.

O papel dos bancos centrais e do dólar na alta do preço

Parte significativa da demanda recente por ouro não vem de joalherias nem de pequenos investidores, mas dos próprios bancos centrais. Diversos países vêm reforçando suas reservas em ouro físico como forma de reduzir a dependência de moedas estrangeiras, sobretudo do dólar. Quando um banco central compra ouro em grande volume, ele retira uma quantidade relevante de oferta do mercado, pressionando o preço para cima de forma consistente. Daniel Mors observa que esse deslocamento de reservas estatais para o ouro físico ajuda a explicar por que a alta do metal, nos últimos anos, tem sido mais estrutural do que especulativa. 

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Some-se a isso o comportamento da própria moeda americana. Períodos em que o dólar perde força tendem a coincidir com valorização do ouro, já que o metal se torna proporcionalmente mais barato para quem compra em outras moedas. A taxa de juros real também entra nessa equação: quando ela está baixa, o custo de manter ouro parado, sem rendimento, pesa menos na decisão do investidor.

Como esse movimento aparece no mercado brasileiro?

No Brasil, essa tendência global se soma a fatores locais, como a variação cambial entre o real e o dólar. Uma alta internacional do ouro em dólar, combinada com desvalorização do real, tende a ampliar ainda mais o ganho medido em reais. Foi exatamente esse efeito combinado que sustentou a trajetória de valorização de 140,45% observada entre 2020 e 2026. Daniel Mors destaca que a combinação entre a alta do ouro em dólar e a variação cambial no Brasil ajuda a explicar por que a valorização medida em reais superou a média observada em outros mercados.

Para quem acompanha o setor de minérios de perto, esse tipo de dado reforça um raciocínio recorrente entre especialistas do mercado: ativos físicos com oferta limitada tendem a se comportar de maneira diferente dos ativos financeiros tradicionais em períodos de instabilidade. Não é um comportamento garantido, mas é um padrão que se repetiu de forma consistente na série histórica recente.

O que essa alta ensina sobre proteção patrimonial?

Nenhum ativo sobe de forma linear e permanente, e o ouro não é exceção a essa regra. Períodos de estabilidade econômica costumam esfriar o apetite por metais preciosos, assim como movimentos bruscos de juros podem reverter tendências rapidamente. O que a série histórica recente mostra, no entanto, é que ativos com oferta naturalmente limitada tendem a reagir de forma diferente dos ativos puramente financeiros quando a confiança do sistema é testada.

Daniel Mors pondera que entender esse mecanismo importa menos para prever o próximo pico de preço e mais para compreender por que certos ativos aparecem, repetidamente, como opção de proteção em momentos de incerteza. É esse padrão, mais do que qualquer número isolado, que explica por que o ouro segue relevante mesmo sem gerar um único centavo de renda direta.

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